13.11.08
UM NEGRO NA CASA BRANCA (II)
A pedagoga de pele preta – graças a Deus! – entrou no táxi para Belo Horizonte, enquanto o condutor destilava suas análises de botequim:
-Todo mundo comemorando a eleição desse tal de Barack Hussein Obama, não é? Deixe-me dizer uma coisa para você, moça! Um caminhão de japonês e um caminhão de crioulo, para mim, não tem diferença, é tudo a mesma coisa!
Ela bateu à porta pedindo algo para tomar o café da manhã, com uma bolsa à tiracolo e o andar de Gisele Bunchen não se fez de rogada:
-Meu sonho, padre, é casar na Igreja, de véu e grinalda, igual às moças da cidade grande, com direito a festa no clube! Se bem que, na verdade, esse é o sonho de minha mãe; não custa nada realiza-lo, não é mesmo padre?
O Thales recebeu-me com um sorriso largo na academia, naquela manhã:
-Padre, teremos o primeiro negro na Casa Branca, hem? Agora só falta um Papa Negro! Mas, pensando melhor, por que esperar tanto se já tenho um padre negro na minha frente, não é mesmo?
Graças ao Conselho de Igualdade Racial de Ponte Nova está chegando uma intensa Semana de Estudos com direito a Censo Municipal para contar quantas rezadeiras e benzedores temos neste Município, passando pelo Quilombo montado na Praça com direito a muita kizomba!
“Repousam as mãos sobre as mesas úmidas esfarinhadas/ manchadas dos vestígios do que restou./ Misturas prensadas de fermento, água e trigo,/ contemplativas de olhar derradeiro,/esperam as formas depositadas/ envolvidas de calor,/ ocuparem os espaços mínimos do tabuleiro: seu ser sem abrigo.
Esfregam os dedos grudados das saliências pastosas,/ apegadas ao mesmo destino./
Substâncias poucas repousadas de tons pastéis/ insistem fixarem todos os seus contágios,/ relutam destruírem as provas,/ lágrimas e desatino,/ estabelecendo as verdades dos plágios:/ ator sem papéis./ Enxugam as mãos nas toalhas de todos os dias,/ penduradas nos pregos do portal.
Águas derradeiras escorrendo gotas da mão,/ repetem na alma o mesmo roteiro,/ encharcam as agonias,/ raiz mortal,/ de um momento, sempre primeiro:/
Vida ao chão.”
*Os versos são do meu amigo Joevante, imortal da ALEPON, nestes tempos de crise “os ingredientes da massa, interligadas, abraçam as fornalhas prontas”.
criado por padrezeluiz
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